Buenos Aires 1
Parece-me um pouco raro escrever sobre Buenos Aires neste momento. Estou na selva, no parque Natural Iguazú e para todos os efeitos já saí de Buenos Aires. Mas acho que tenho de respeitar a ordem cronológica - não me resta mais nenhuma e não quero que ninguém fique a achar que saltei de Península Valdés para o Uruguai, sobre o qual quero falar, ou para Iguazú, onde não tenho muito que dizer porque o lugar fala por si, ou mesmo para Ushuaia, onde aterrei hoje.
Vamos por isso começar por Buenos Aires. E vamos começar com o porquê Buenos Aires (doravante, "BS AS" ou "Baires", que eu prefiro mas ninguém parece utilizar). Aliás, vários Argentinos fizeram-me esta mesma pergunta, meio espantados, assim que lhes dizia que vinha de Portugal.
Expliquei-lhe que os portugueses têm o terrível defeito que ter que sair do seu pais para o valorizar. Acho que não há nada de necessariamente mau com isso. Imagino que Vasco da Gama, em algum momento da sua viagem, só se queixava de perder o cozido de quinta-feira no Canetas. Eu, por exemplo, dei por mim por várias vezes a sonhar acordado com as familiares praias da Costa da Caparica. Momentos houve em que abdicaria de todas as empanadas (de carne picante, obviamente) para me sentar no 19, Fila 15, Sector A24 do meu José Alvalade querido (e tão maldito).
Mas isso não explica BS AS . Vim atrás de uma ideia. De algumas ideias se calhar, assim meio etéreas e indefinidas. Provavelmente tontas. Uma delas veio-me de um conto de Eduardo Galeano (que não é Argentino, mas tem tanto de argentino como todos os argentinos têm de uruguaios), que não encontro agora nem por nada, mas que acho que está no Livro dos Abraços, e que fala de um condutor de autocarro que, num determinado dia, abandona o seu posto de trabalho em plena carreira, com vários passageiros a bordo, para ir visitar a mãe, que está doente. Após alguns minutos de estupefação geral, uma passageira levanta-se do seu lugar e assume o volante, conduz até à sua paragem e sai. Outro passageiro repete o movimento, até que todos chegam onde têm de chegar. Sempre imaginei esta história, que não sei exatamente onde se teria passado, como uma visão sobre as gentes deste lado do Atlântico.
No outro dia apanhei o 110, que liga Recoleta a Palermo. Eram umas 9 da noite, e adivinhava-se o cansaço nas caras que me rodeavam. Mas o condutor seguia especialmente animado: cumprimentava todos que entravam da forma mais generosa possível, com perguntas que demonstravam que se lembrava de cada uma daquelas caras, seguia cantando as músicas anglo-saxónicas que saiam do rádio e mantinha um sorriso que muitos não tinham naquele dia. Há um momento que pára num sinal vermelho, levanta-se e sai do autocarro (doravante, o “colectivo”), deixando os passageiros que entravam com cara de parvos. Um deles pergunta-lhe que se passa. “Vou comprar cigarros”, responde o condutor com uma naturalidade que é correspondida com um pedido desse mesmo passageiro: “Posso pedir um?”. Esperamos todos uns dois ou três minutos. Consigo entender à distância que não tem troco, ou algo do género. Regressa ao autocarro, cumprimenta os seus novos passageiros, senta-se ao volante e retoma o percurso, como se nada se passasse. Porque acho que na verdade nada se passou. Não sei se esta postura, tão relaxada será a mais eficiente para os sistema de transportes públicos de Buenos Aires, mas imediatamente lembrei-me da história de Galeano, que sempre me pareceu tão verdade como ficção e agora me parecia só verdade.
Neste lugar, cheio de problemas, os condutores do colectivo não deixam de ser pessoas. E os autocarros chamam-se colectivos.
Há muito mais que tenho de contar sobre Buenos Aires. Sobre a comida, a festa, o futebol, o caos, os livros, as pessoas. Fica para outro dia. Porque o condutor do 110 que parou para comprar cigarros é um bocadinho um resumo de tudo isto. Ainda que só quisesse mesmo comprar cigarros, para mim acabou como embaixador de Buenos Aires.
PS: encontrei o conto de Galeano. Lembrava-me de algumas coisas mas confundi outras. O condutor do autocarro não abandonava o posto para visitar a sua mãe doente, mas sim porque tinha visto uma mulher lindíssima do outro lado da estrada. O primeiro passageiro que assume o volante fá-lo porquê o condutor é avistado momentos depois a sair da gelateria com dois gelados na mão a conversar com a tal mulher. Não sei se isto melhora ou piora o conto ou o parelelismo, mas achei que deviam saber.
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