Península Valdés

Península Valdés. Há alguns anos que tinha este nome na cabeça. Sempre me soou a lugar imaginário, lugar que não existe, lugar tirado de um filme do Indiana Jones. O tipo de sítio que se existisse seria conhecido por todos e de passagem obrigatória.

Bom, eu fui à Península Valdés e tenho algumas coisas para contar. 

Antes de mais, que fique claro que não é fácil chegar à Península. Eu, por exemplo tive de apanhar um avião de Lisboa para Roma, onde apanhei um avião para Barcelona, onde apanhei um avião para Buenos Aires, onde apanhei um avião para Trelew, onde ia apanhar um autocarro para Puerto Madryn, onde ia apanhar um autocarro para Puerto Pirámides, onde ia apanhar um táxi para a Península Valdés. Não sei se repararam, mas há dois tempos verbais diferentes na frase antecedente: é que acabei por alugar um carro em Trelew, o que me custou uns valentes euros mas me deu flexibilidade e liberdade que neste canto recôndito pode valer esses valentes euros.

Mas se calhar devia começar por explicar porque é que vim à Península Valdés. Resposta rápida: porque queria ver orcas. Não sei muito bem porquê: sei que um dia vi o documentário Blackfish, sobre orcas em cativeiro e que recomendo que vejam, comecei a ver vídeos sobre orcas na lupinha do Instagram, até que um dia descobri um vídeo no qual orcas caçavam leões marinhos. 

O que me fascinou foi o como. Imaginem um leão marinho bebé, querido, trapalhão, que se aproxima de forma bastante patusca da água. Vamos chamar a este leão-marinho bebé Farrusco. Agora imaginem que no preciso momento em que o Farrusco se aproxima da água, uma besta de 8 toneladas, de camuflagem preta e branca, do tamanho de um pequeno autocarro, sai na quase totalidade da água, sobe pela praia acima até só ficar com um terço do corpo dentro de água e com uns dentes que parecem navalha e apanha o Farrusco. O Farrusco tenta fugir, mas é inútil: a orca, que é o nome desta besta, volta para dentro de água com o Farrusco entre as mandíbulas. 

É um comportamento brutal, no sentido em que a natureza é brutal. A vida é brutal, acrescento. Mas raramente a brutalidade se combina tão bem com a inteligência. É que, depois de ver este vídeo, fui pesquisar e aprendi que este não é um comportamento típico das orcas: há apenas um lugar  no mundo onde as orcas caçam deste modo. Adivinharam, na Península Valdés. 

Fiquei com isto na cabeça. Interroguei-me sobre o que poderia querer dizer que este comportamento, tão brutal, me fascinasse tanto. Não cheguei a nenhum resposta. Mas decidi que queria ir em pessoa ver isto. O nome foi ficando. Disse a algumas pessoas que queria ir à Península Valdés. Começou a ser algo sobre mim. “Sou o Francisco, 20 e tal anos, advogado, do Sporting, calço o 43 e quero ir à Penínula Valdés. Não, não sei o meu tipo de sangue de cor. Se calhar devia.”. Acontece que a certa altura decidi que não queria mais ser advogado. Pelo menos por agora. Decidi que que queria ir ver o mundo. Apercebi-me que o mundo era muito grande. E por isso decidi começar pela América do Sul, que também era grande, mas menos. E decidi que tinha de começar pelas Orcas. 

Como já disse, não é fácil chegar à Península Valdés. Mas esse não é o único obstáculo que encontrarão caso, como eu, queiram ir ver as orcas (o que me parece pouco provável). Isto porque as Orcas aparecem sobretudo nos meses de Outubro e Novembro e Março e Abril, apenas nas marés altas, e não todos os dias: em média, uma vez a cada três dias. Ou seja, isto não é só comprar 27 bilhetes de avião e chegar a Puerto Pirâmides, sacar de uma cadeira e ver orcas. É preciso ir nos meses certos, é preciso ficar uns 4 / 5 dias para maximizar as chances de elas aparecerem, é preciso acordar às 6 da manhã se a hora da maré alta assim o exigir. E, não sei se se lembram, mas no início falei de um carro. Bom, o que se passa é que as orcas estão a 76 kms de distância de carro de Pirâmides. E não são 76 kms de autoestrada, ou coisa que se pareça. São 76 kms por uma estrada que varia entre a “gravilha solta que obriga a que não se passe dos 50 km/h caso contrário o risco de capotar é real” e a “terra seca cheia de altos e baixos que faz com que a ideia de descer a Serra da Estrela de patins em linha se torne apetecível”. Ou seja, é muito difícil chegar aos miradouros em menos de duas horas. Se a maré alta for às 8 da manhã, há que sair às 4, para estar lá duas horas antes da maré alta. Com 33% de probabilidades  de não ver nada

Chegados aqui, acredito que nenhum dos pobres leitores deseje minimamente ir ver as orcas. Eu, como padeço de uma maleita ainda por diagnosticar, só ia ganhando ganas à medida que me ia apercebendo da estupidez em que me estava a meter. Soava a aventura. E então lá fui. 

No primeiro dia, atirei me à estrada de gravilha quase de direta (história para outro dia), porque os guardas do parque me disseram que as orcas não eram vistas há 3 dias (o que é um bom sinal, significa que não tarda terão de se vir alimentar). Fui com o Jay, rapaz de Manchester, dono de um sotaque que o evidenciava desde o  primeiro contacto, e que trabalhava no hostel onde eu estava. Vimos pinguins, centenas de elefantes marinhos, mas não orcas. Disseram-nos que tinham sido vistas uma hora antes de nós chegarmos. Eu já tinha as probabilidades mais ou menos interiorizadas, pelo que não desmoralizei. 

Fui novamente no dia seguinte. Três médicas de Veneza e uma nativa de Buenos Aires no carro, para dividir custos. As italianas não falavam espanhol, a argentina não falava inglês. Apontei em primeiro lugar aos pinguins. Estávamos lá há uns 15 minutos, preparados para seguir caminho, quando chega um carro. Dele sai um homem de quarenta e tal anos, com um ar meio de índio, dono de uma expressão e de uma câmara fotográfica bastante sérias. Fiquei a observar. As italianas iam-se aproximando do do nosso carro, mas eu não deixava de conseguir pensar que aquele tipo sabia de algo.

Passam uns segundos, e outros carros, com outros sujeitos igualmente sérios e com câmaras igualmente profissionais param. Só podia querer dizer uma coisa. Orcas. Timidamente, aproximo-me do tal com ar de índio. Pergunto-lhe, a medo, se tinha visto orcas. Responde-me, de forma seca e desinteressada, que sim. Orcas. 

Entro num excitamento mal controlado, e consigo contagiar as minhas colegas de carro, que até há pouco pouco interesse tinham nas orcas. Dou pulinhos, imagino que tenha instalado um sorriso idiota na minha cara durante uns bons minutos. Aproximam-se de nós, vindas do Oceano, diz-nos o fotógrafo. Estamos num miradouro dentro de uma ria. Aos poucos mais gente junta-se, entre simpatizantes e fotógrafos mais ou menos amadores, podemos ser umas 30 pessoas. Ao longe já conseguimos ver algo, primeiro um jorro de água, talvez até uma barbatana. Começa a ficar claro que vêm na nossa direção . Aguarda-se em silêncio. Não sei se por alguma razão especial, para não as assustar, ou se apenas estamos todos da importância do que estamos prestes a vivenciar. Começamos a conseguir distinguir barbatanas dorsais maiores e menores. Machos e fêmeas. Começamos a conseguir contar, são 5, 6, olha ali outra, 7. Estão perto. Cada vez mais. Passam por nós, a uns 50 metros, devagar mas decididas. Não se passou mais nada. Continuaram a nadar, afastam-se. Corremos para o carro e procurámos um outro miradouro um pouco mais dentro da ria. Esperámos um bocado e o mesmo espetáculo repetiu-se. 

Esta é a altura em que devo explicar o que senti. Atravessei um oceano para ver as orcas, e tinha visto as orcas. Por um lado havia a sensação de dever cumprido. As orcas tinham sido um sonho pequenino mas extravagante, que são um tipo de sonhos muito dados a não acontecer. Eu tinha conseguido cumprir o meu. Mas, ao mesmo tempo, estava quase desiludido, As orcas, tenho de o confessar, desiludiram-me um bocadinho. Não porque não fossem um animal de um semblante único, não que não me tenha arrepiado ao ver distintamente o preto e branco da sua pele ao sair da água, mas sim porque senti que tinha sido pouco. Tinha-me sido prometido observar um comportamento muito específico, único, e tinha-me apercebido que estava na altura errada do ano para o observar. Mas era evidente que tinha de ver as coisas de outro modo. There is only so much you can do, diz-se em inglês, e eu sentia que tinha feito tudo o que podia. E havia muito mais para fazer em Pirâmides e na América do Sul. Isto era apenas o início de tudo. 

Dois dias depois, Ronya, nova hóspede do Hostel, acordou-me às 8 da manhã, e com ar de poucos amigos, a perguntar se sempre íamos à Península. Tinha-lhe falado da hipótese no dia anterior, mas esqueci-me, bebi umas cervejas e deitei-me tarde. Vontade de enfrentar novamente a estrada de gravinha no meu Volkswagen UP era quase zero. Mas senti-me sem coragem para cancelar assim tão em cima, sem qualquer desculpa. Ainda para mais quando a Ronya me olhava com ar de poucos amigos. Já era um bocado tarde, mas ainda nos restavam umas horas de maré alte. Vamos a isso, disse.

Duas horas depois anuncio que estamos quase a chegar. Ela pergunta-me que vamos ver em primeiro lugar. Sugiro irmos primeiro os pinguins, até porque as crias deviam estar quase a nascer. Ao aproximar-nos do miradouro, vemos dezenas de carros, carrinhas de guias, pickups, etc. Por instantes ainda penso que pode ser um bom sinal: multidões na península significam Orcas. Mas seria demasiado bom. No dia em que vi orcas estavam metade dos carros. No dia anterior as Orcas não tinham sido vistas, ou tinham sido vistas noutro lugar. Faltam-nos 150 metros e era escusado criar expetativas. Entramos no parque de estacionamento, há uma pessoa que tinha ido buscar coisas ao carro. Perguntamos a medo: Orcas? Orcas outra vez. I

Instala-se nas nossas caras um sorriso de orelha a orelha, daqueles que usámos entre os 4 e os 8 anos, na manhã de natal, quando entrávamos na sala e a árvore estava cheia de presente, e que tão bom é voltar a usar, nem que seja de vez em quando. Saltamos do carro, mal estacionado, destrancado e corremos para nos juntarmos à audiência. Na hora que se seguiu estiveram 8 a 9 orcas, machos fêmeas e crias, a alimentar-se à nossa frente. Patrulhavam de um lado para o outro, escolhiam presas, saiam da água, caçavam, outras vezes falhavam e tinham de voltar a tentar. Durante largos minutos as fêmeas estiveram a ensinar as crias este comportamento: saiam da água, sem qualquer presa em vista, simplesmente para ensinar as crias, que as imitavam. Se ficassem presas, eram resgatadas pelas fêmeas.

Os machos caçavam apenas para si, as fêmeas caçavam e utilizavam a presa para ensinar as crias. A dor de cabeça de desidratação começava a instalar-se e o escaldão fazia-se adivinhar. Mas não arredámos pé, não tirávamos os olhos das Orcas. Foi tudo o que podia querer. 

Os meus pais costumavam lembrar o rabugento adolescente Francisco que a criança Francisco reagia a todo e qualquer presente de Natal ou de Anos com um “era mesmo isto que eu queria”. É raro que a vida nos dê “mesmo” aquilo que queremos. E isso não tem mal nenhum, ensinam-nos, e há de ser verdade. Ter vindo a Pirámides e não ver orcas seria sempre uma boa história. Levaria ainda muita coisa comigo, pessoas, impressões, que ficariam comigo para sempre. Vir a Pirámides e ver as orcas no segundo dia foi óptimo. Este dia foi diferente. Senti-me um privilegiado, mas senti também que seguramente estaria a gastar todos os cartuchos de sorte de uma viagem de meses, nos seus primeiros dias. Sabem aquela sensação “isto está tudo a correr tão bem que só pode começar a correr mal”? Era algo deste gênero. 

Gostava de contar muito mais sobre Puerto Pirámides e sobre as pessoas que ai conheci.  
Sobre a Naty e o Jay, por exemplo. A Naty que tem 29 anos, dois hostéis, pouco ou nada fala de inglês e namora com o Jay, que veio atrás da Naty desde a Tailândia, onde se conheceram com um “Cerveza, senorita?”, que eram as únicas palavras em castelhano que o Jay sabia.

Devia falar sobre a avistagem de baleias: é o único sítio do mundo onde é garantido avistar baleias, neste caso a baleia franco-austral e esse é um espetáculo tão único como o das orcas. Falar sobre fazer snorkeling com leões marinhos, que mais que tudo pareciam cães do mar, tão curiosos e brincalhões que são. Sobre o que se sente quando estamos num canto do mundo tão isolado e tão bonito.

Talvez um dia fale de todo isto, talvez não chegue a ter tempo. Hoje quis falar das orcas e do dia em que tive “mesmo” aquilo que eu queria. 

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