(Pessoas: leiam este texto tendo em conta que tirei Direito e que sei muito pouco daquilo que me disponho a falar. E falo apenas porque sinto que a perspetiva de quem não sabe do que fala pode ser importante para esta questão em particular. Por isso mesmo, a linguagem utilizada é aquela com que as ideias se formaram e não outra mais adequada e que eu não conheço)
Por vezes queixo-me às paredes (dado que ninguém está para me ouvir) que a arte de hoje em dia está demasiado longe da gente, intelectual e emocionalmente. Intelectualmente porque várias vezes senti que precisava de um curso de história de arte para entender porque é que uma tela branca pode ser considerada uma obra prima ou o que justifica que uma banana colada à parede de um museu possa valer 120.000 Euros. Emocionalmente porque olhar para a mesma tela branca dificilmente nos poderá provocar o quer que seja além de dúvida e alguma frustração. Porque é que não entendo isto?, o que tem isto de especial, devo ser meio burro. É um percurso mental que já fiz e acredito que não tenha sido o único.
O exemplo oposto, daquilo que chamaria arte acessível, se pudesse dar nomes às coisas, seria a arte sacra. Mesmo que sejamos pouco religiosos, mesmo não entendendo nada de óleos, telas e técnicas que os conjugam, conseguimos quase todos reconhecer que um Caravaggio é tão claro na sua mensagem como é um feito técnico admirável e que não seríamos capazes de imitar sem anos de escola. Muitas obras de outro teor sobrevivem a este meu duplo-teste manhoso. Mas, na minha opinião, se calhar não assim tantas depois da segunda metade do Século XX. Por exemplo, para mim, passam as manchas do Rothko, o golo do João Pinto à Inglaterra no Euro 2000 e pouco mais
Antes de avançar, uma ressalva: este meu comentário relativo à arte contemporânea não é para ser lido como crítica, porque não sei nem me atreveria a produzir juízos de valor. Ambiciona mais ser um juízo de facto: a arte está-nos distante.
Ora, hoje fui ao MALBA, Museo de Arte Latinoamericano de Buenos Aires. É um excelente museu, que conta a história da arte contemporânea da América Latina. Recomendo.
Mas o que me espantou e motivou estas palavras foi a exposição temporária, de Ernesto Soplo, escultor brasileiro de que nunca tinha ouvido falar até hoje. Estava no museu há umas três horas, na exposição permanente, dedicada à pintura contemporânea da América Latina, quando subi de andar e encontrei um cenário raro num museu deste género: dezenas e dezenas de crianças que corriam de um lado para o outro, mal contidas pelos seus pais. Uma fila formava-se perto daquilo que só consigo descrever como um túnel de collants gigante ou de uma árvore de novelos, da qual saia uma fita de novelo que devíamos colocar sobre a cabeça, que mais parecia uma coisa do Avatar. Havia uma tenda dedicada a um bombo e umas cadeiras feitas de balões que parecia saída do Avatar. Três raparigas vestiam uma algo que tenho de baptizar de poncho colectivo, no meio do qual se encontrava um belo de um calhau e que servia o propósito de as equilibrar. Toda a exposição parecia algo feito pelo Tarzan, em partes iguais recreio e expressão de uma sensibilidade particular. Não me vou pronunciar sobre o valor artístico das obras, até porque ninguém está muito interessado nisso. Mas é inegável que não pude, em momento algum, acusar Soplo de se colocar no tal Olimpo dos artistas que nos é tão distante. Pelo contrário, parecia que queria brincar connosco.
Mas o que me espantou e motivou estas palavras foi a exposição temporária, de Ernesto Soplo, escultor brasileiro de que nunca tinha ouvido falar até hoje. Estava no museu há umas três horas, na exposição permanente, dedicada à pintura contemporânea da América Latina, quando subi de andar e encontrei um cenário raro num museu deste género: dezenas e dezenas de crianças que corriam de um lado para o outro, mal contidas pelos seus pais. Uma fila formava-se perto daquilo que só consigo descrever como um túnel de collants gigante ou de uma árvore de novelos, da qual saia uma fita de novelo que devíamos colocar sobre a cabeça, que mais parecia uma coisa do Avatar. Havia uma tenda dedicada a um bombo e umas cadeiras feitas de balões que parecia saída do Avatar. Três raparigas vestiam uma algo que tenho de baptizar de poncho colectivo, no meio do qual se encontrava um belo de um calhau e que servia o propósito de as equilibrar. Toda a exposição parecia algo feito pelo Tarzan, em partes iguais recreio e expressão de uma sensibilidade particular. Não me vou pronunciar sobre o valor artístico das obras, até porque ninguém está muito interessado nisso. Mas é inegável que não pude, em momento algum, acusar Soplo de se colocar no tal Olimpo dos artistas que nos é tão distante. Pelo contrário, parecia que queria brincar connosco.
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