Chile 1 - Torres Del Paine

Dia 0

21:53

Começo a preparar a mochila para o circuito W, Parque Nacional Torres Del Paine, no lado chileno da Patagonia. Será uma caminhada de 5 dias e 4 noites, num percurso que faz lembrar um W (dai o nome), com 3 pontos de especial interesse: no dia 1, visitar a mítica Base das Torres del Paine, que emprestam o seu nome ao Parque, no Dia 3, o Mirador Britânico, que oferece uma perspetiva única sobre a parte central do parque, e no Dia 5, o Glaciar Grey. Não terei tempo para fazer o mirador Britânico, dado que implica percorrer 25 kms num dos dias e não estou seguro que tenha estofo para o fazer. É que entre estes vários pontos de interesse estão vários kilómetros, que terão que ser percorridos maioritariamente com casa às costas. 

Não foi fácil chegar até aqui, mas sobretudo e porque marcar tudo é um pequeno pesadelo. Um mês antes já é tarde para garantir ligar nos vários parques de campismo. Ainda para mais é necessário conciliar sistemas de 3 empresas diferentes. De tal modo que sempre que comento que vou fazer o W, a primeira pergunta que me fazem é se tenho reservas. Para quem gosta de desafias logísticos é um mimo, para mim foi sobretudo uma dor de cabeça. Com esse obstáculo superados, de compras feitas, com o material alugado, falta-me apenas encaixar tudo na mochila. E “tudo” neste contexto significa saco de cama, tenda, colchão, kit de cozinha, roupa técnica e comida para os cinco dias. É despachar isto e ir-me deitar, que amanhã tenho de acordar pelas 6 da manhã e quero estar fresquinho.

21:55

Arrumo o saco de cama dentro da mochila e imediatamente fico sem metade do espaço que tinha para todo o equipamento. Começo a suar.

21:57

Em pé, de mão na anca, contemplo contemplo a mochila e o saco de cama. Não consigo mesmo compreender como é que este pode ser tão grande. Olho para o resto das coisas que tenho para levar. Pelos meus cálculos, precisava de 2 ou 3 das mochilas que tenho. Mas só tenho uma. Experimento acrescentar a comida a ver que espaço fica livre. Má ideia. Continuo a suar.

21:59 

Desisto de Torres del Paine. O hostel tem boa onda e os outros hóspedes também não vão fazer o W, mas apenas excursões de um dia aos vários pontos de interesse. Não é vergonha nenhuma, simplesmente não nasci para isto.

22:00

Vá, vamos lá. Não pode ser assim tão difícil. Todos os coxos conseguem. Fica de fora um polar, se calhar não preciso de levar os leites com chocolate, a tenda pode ir do lado de fora da mochila tal como o colchão. A coisa há de funcionar.

23:53

Terminado. Tive que tirar mais uns itens de supermercado, mas não me pareceram coisas muitos importantes. A mochila está feita. Agora vou tentar vendê-la a um dos meus colegas de quarto, a ver se preferem ir no meu lugar e eu fico a descansar no hostel que isto até agora não foi nada divertido e não promete melhorar.


Dia 1

6:00

(despertador toca. Francisco dorme)

6:15

(despertador toca. Francisco por alguma razão acha que pode continuar a dormir)

6:23

MERDA CARALHO ESTOU ATRASADO! ONDE ESTÁ MOCHILA? TENHO 36 SEGUNDOS PARA SAIR DE CASA

6:30

As ruas de Puerto Natales não estão desertas. Dezenas de mochileiros como eu, mas bem equipados, rumam ao terminal de autocarros de Puerto Natales. Daqui, às 7:00 am, saem todos os dias uma boa dezena de autocarros em direção ao Parque. Vamos-nos encontrando ao virar de cada esquina, como se convocados pelo Flautista de Hamelin e à chegada ao terminal somos uns 30 em fila indiana.

Eu, de mochila ás costas, vou pensando no que me estou a meter. Mas penso pouco. Sinto sobretudo. E sinto sobretudo o peso da mochila. Não a pesei mas deve estar ali nos 15 kilos. Nem pensar que vou aguentar 5 dias se 5 minutos me custam isto. O tendão de Aquiles do calcanhar direito dá sinais de vida: a dor que me anda a assustar há alguns dias continua bem presente e assusta-me. A nota positiva é que aluguei “sticks de caminhada” que me prometeram ajudar a aliviar alguma pressão do calcanhar. Sim, daqueles que as senhoras nórdicas de meia idade usam. São bem jeitosos.

7:45

Já no autocarro, tento dormir mais um bocado, sem grande sucesso. Vou descansando os olhos. De vez em quando, levanto a venda dos olhos e lá fora encontro apenas a vastidão sem fim da Patagonia. Montanhas e planícies sem qualquer árvore compõem um cenário que só pode ser descrito como árido. O céu é mais alto, como aquele que encontrei na Península Valdés. Ninguém me convence que a altura abóbada terrestre não se vai adaptando à beleza dos sítios. Volto a colocar a venda porque estou mesmo com muito sono e tenho 5 dias de Patagonia pela frente.

9:28

Chegámos à entrada do Parque Nacional pelas 9:00. Fizemos o check-in, assistimos a um vídeo com as regras do parque e separam-nos conforme o percurso que vamos fazer. Espero o meu autocarro, que me vai levar até ao Parque Central. Curiosamente, o Parque Central não fica no meio de nada, mas sim no segundo vértice inferior da letra W. (ver mapa disponível no Google.com)

10:58

Perto das 10:00 da manhã fiz mais um check-in, desta vez no Parque Central. Explicaram-me as regras e os horários deste meu primeiro poiso e instalei-me relativamente rápido. Deixei na mochila apenas aquilo de que preciso mesmo: água, umas barritas, casacos para chuva e e frio e faço me à estrada, cheio de genica mas ainda muito inseguro sobre o que estou prestes a fazer.

11:05

Pergunto-me se terei perto. Já devem ter passado umas duas horas. O bom é que os paus de caminhada são uma ajuda notória.

11:15

Chove.

11:25

Chove e vento aparece.

11:30

Chove mais e vento está mais forte.

11:36

Estou a ser apanhado por todos os que começaram antes de mim. O vento está mais forte e chuva vai chovendo mais.

11:39

Ok, vou só voltar para casa. Farto disto.

11:46

Nem gosto muito de caminhadas. 

11:54

Caminhadas parece-me ski mas com menos diversão e mais esforço físico. Ski para tontos. 

11:59

MONTANHA MAIS BONITA QUE JÁ VI NA MINHA VIDA! LINDO LINDO LINDO!!!

12:00

Ok uma hora já passou. Só faltam 8 hoje. E umas 70 nos próximos dias. Acho que fico por aqui.

12:05

Rio mais bonito que já vi na minha vida. Com uma pontezinha e tudo. Parece a Suíça isto. Que sítio bonito e que boa e original ideia tive eu. Nunca duvidei nem por um segundo. Sinto-me pleno.

13:25

Cheguei ao primeiro ponto de paragem, o acampamento Chileno, onde idealmente teria ficado a a dormir, por estar mais perto das Torres. Entrei no restaurante do refugio por curiosidade. Os preços são mais ou menos os que esperava. 15 euros por uma pizza ou um hambúrguer. Uma cerveja 8 e um café 4. Encontro um menu de 7 euros composto por uma tosta mista e um café. Bem sei que o café é instantâneo e que vim em modo poupança, mas o espírito pede uma pausa e uma refeição quente.

13:30

Estou sentado no café do refúgio e gozo dos meus 5 minutos de Wifi grátis. Lá fora chove, cá dentro está quente. Faltam umas duas horas para chegar ao mirador e as perspetivas não são as melhores. O céu está visivelmente encoberto e oiço algumas pessoas à minha volta a dizer que vão tentar subir na manhã seguinte, que hoje não vale a pena. O refúgio tem um vista privilegiada sobre as Torres e a verdade é que não é possível ver mais do que o início das Torres. Tudo o resto é cinzento. Mas uma coisa é clara. Amanhã não vou subir isto outra vez, por isso há que voltar à trilha.

14:24

Caminho já há algum tempo. O terreno é diferente, mais acidentado, mais pedras a servir de degraus cada vez mais altos, que puxam tanto pelo pulmão como pela perna. O caminho é também bem mais estreito e há verdadeiramente trânsito, assim tipo Marginal em dia de chuva. 

Paramos, os que subimos, a cada par de metros para ceder passagem ou esperar que nos cedam passagem. Entre a chuva, o vento, o cinzento, o esforço físico e agora o trânsito, cada vez mais estou certo que isto não é para mim. Os sticks de caminhada, no entanto, vão se revelando úteis, aliviando a pressão sobre o calcanhar e a dor é neste momento diminuta. Prossiga-se.

15:54

Do meu lado direito, uma falésia. Mais ou fundo, da encosta da montanha vão-se vendo quedas de água que parecem ser veias abertas da montanha. O branco decora quase todos os picos, alguns pela neve, outros pela neblina. As árvores são das mais verdes que já vi e o ar é puro. Entre a minha falésia e a tal montanha há um vale e forma-se um rio com todo a água que vem de dentro da terra. Mais rápida, mais branca, ou mais calma mais lá ao fundo. O sol deixa-se adivinhar por detrás de uma nuvem, mas não me parece convencido ainda. Passa por mim um espanhol (já sei mais ou menos distinguir sotaques!) e comentamos que a coisa não parece muito animadora. Mas isto já é muito bonito. Não sei se já tenho o espírito definitivamente preparado para os próximos dias, mas vou, entretanto, absorvendo o que me rodeia.

16:00

Há medida que nos aproximamos da Base das Torres vou dando cada vez mais pontapés em calhaus e passos em falso. Cometemos mais erros quando estamos perto do que buscamos mas apenas porque se calhar nunca acreditámos muito bem na chegada.

16:15

Uma enorme piscina esmeralda, não sem fim porque lá do outro lado, nesse fim, está uma parede de pedra de dimensões titânicas. Parece uma barragem, precisamente para afastar essas figuras da mitologia grega. As torres continuam escondidas mas conseguimos descortinar as fundações da Torre Sul, Central e Norte. São tímidas. Bem as percebo, também nunca gostei quando os meus pais tinham visitas e ficava no meu quarto até ter mesmo de descer para o jantar. 

16:23

Entre o vento, sol e sorte, temos direito a uma aparição quase total das três Torres. Só a Torre Central se guarda. Utilizo a forma plural porque, tal como o trânsito de que já falei podia fazer adivinhar, a base das torres não é o lugar mais zen deste mundo. Dezenas e dezenas de caminhantes iguais a mim espalham-se, procuram a melhor fotografia ou apenas um canto protegido do vento para comer uma sandes parecida com a minha. Coloco os headphones e deambulo também eu, saltando de calhau em calhau. 

16:25

No meio de tanto recolhimento pisei um dos sticks de caminhada. Um passo em falso, (bem?) mais de 80 kgs em cima e dobra-se ao meio. Fico a olhar feito parvo durante uns cinco minutos para a cena do crime, como se olhar fosse resolver o problema. Mais que o dinheiro que terei de dar por um novo, assusta-me a a simbologia de perder um apoio para a caminhada, logo no primeiro dia, um apoio que se vinha demonstrando tão útil. Ao tentar endireitar o stick, parto-o em dois. Tento não pensar em mais simbologias. Trata-se apenas de pura ignorância sobre propriedades do alumínio e rejeito liminarmente qualquer outra interpretação. 

Batizo o stick de caminhada como “stick de caminhada #1” e guardo os seus restos mortais na mochila

18:30

A descida foi tranquila. Com menos gente, fui gozando um bocadinho de toda a beleza que me rodeia. Está na altura de ir explorar o parque de campismo, talvez fazer um café e preparar-me para jantar cedo.

18:49

Bom, ao que parece não trouxe café. Ficou no hostel, dentro do saco do supermercado com coisas que não precisava. Pena que seja viciado em café. Mas em contrapartida trouxe a manteiga! Pena que desde criança que não goste de manteiga. Não encontro igualmente os chocolates ou os mirtilos. Ok, tenho desculpa, é a minha primeira vez nestas andanças. A minha maior experiência de campismo foi no verão passado no Paredes de Coura, na casa da D. Bina, e nem me lembro se usei estacas. Mas inexperiência paga-se cara.

23:00

Descubro que a inexperiência, como a vingança, serve-se fria: o saco de cama que me alugaram tem uma temperatura de conforto do 5º graus e de “limite” de 0º. Algo que me pareceu perfeitamente razoável no momento em que o aluguei mas que agora não. Não sei que temperatura é esta, mas está mais para os -5º do que para os 5º. Visto mais umas camadas e tento dormir. Amanhã são apenas 14 kms, mas serão 14 kms com a mochila completa às costas e o calcanhar continua a assustar e por isso quero é adormecer para descansar. Não me sobrou energia para ler, escrever ou sequer socializar muito. De qualquer modo, a zona de cozinha do Parque Central, que será o único sítio de socialização, é pequena, exposta aos elementos, e há uma verdadeira pressão para dar lugar aos próximos.

Dia 2

9:00

Acordo com a bela duma dor de garganta. Brufen para cima que isto está muito no começo. Agora é fazer as malas, arrumar tenda, preparar pequeno almoço e sair. A ver se às 10 estou na estrada, para chegar cedo e poder escolher um bom lugar.

11:00

Adorava ter filmado as duas horas que se passaram. Arrumei algumas coisas na mochila, peguei na dita e transportei-a até um banco. Voltei para arrumar mais coisas, levei outras para a casa de banho. Levei mochila do banco para casa de banho. Voltei com tudo para perto da tenda que ainda falta desmanchar. Penso que se calhar devia primeiro comer pequeno almoço. Levo mochila e avulsos para a o mesmo banco mas está muito vento e vou mas é para área de cozinhar. Não cozinho que não tenho nada para cozinhar. Levo mochila e avulsos de novo para perto da tenda. Finalmente desmonto e arrumo tenda e saco de cama, o que me toma uma meia hora e cinco tentativas por item. Estou pronto. Só me faltou o café, lavar os dentes, preparar o almoço, arrumar mochila de forma a distribuir o peso da melhor forma possível, mas os caminhantes têm é de caminhar e não perder tempo com mariquices.

(opcional: colocar musica do Benny Hill)

12:00

Uma hora de estrada e sinto-me bem. A mochila pesa mas o corpo habitua-se. O sol brilha e amplifica a beleza natural do caminho, que vai passando pelo Lago Nordenskjold. Decidi que o segundo dia tinha de ser um bom dia dê lá por onde desse e por isso comecei a caminhada com headphones. A decisão revelou-se acertada e entre o sol, a música e facto de não haver um décimo do trânsito do dia anterior, estou contente e vou assobiando ou mesmo cantando enquanto caminho. O caminho é menos acidentado, mas não sem algumas subidas daquelas que levam a pulsação para perto dos 140 bpms. 

Caminho de t-shirt e calções.

12:45 

Esta coisa dos headphones foi mesmo boa idea. Só não os posso perder ou algo desse gênero, como perdi com o meu outro companheiro de caminhada "stick de caminhada #1”.

12:55

Passo num miradouro com vista para o lago. Várias pessoas apanham sol, alguns preparam café e fico com inveja. Resolvo parar também e comer uma maçã. Deito-me na rocha quente, apoio cabeça na mochila e descanso por alguns minutos. Escuto Eddie Vedder, que tem músicas que soam a isto que estou a ver.

12:59

Um casal instala-se desconfortavelmente perto do meu cantinho e levanto-me para retomar a caminhada. Ao levantar-me, meio desajeitadamente como se levantam as pessoas que estão a ser incomodadas, piso um dos auriculares. O outro prende-se na mochila e a física não perdoa. Contemplo o espetáculo, como antes contemplei a mochila por fazer ou o “stick de caminhada #1”. Contemplação continua sem resolver nada.

13:00

Mas para esta tenho resposta, Universo, ai tenho sim. Nunca ando sem dois pares de headphones. Ok, ando imensas vezes sem dois pares de headphones mas por pura sorte desta vez tenho dois pares. Não sei se hei de encarar isto como sorte ou azar. Provavelmente nenhum dos dois, que nem devem existir.

15:37

O resto da caminhada correu sem grandes incidentes, com paragens apenas para observar de pontos diferentes o lago Nordenskjold (quando voltar tenho que descobrir o que quer dizer) e
cheguei ao acampamento Los Cuernos pelas 15:00, um dos três no meio do percurso . Não é o melhor da área central porque só tem plataformas de madeira, piores para prender a tenda, e mais longe do objetivo do dia seguinte. Mas era o que havia e é notoriamente bonito. À chegada somos recebidos por uns chalets de madeira, muito charmosos, que parecem desenhados na montanha que se ergue por trás e que, quais sereias, nos parecem convidar o interprete aventureiro a abandonar a sua fiel tenda para entrar no seu conforto. Resista-se.

O parque fica mesmo no sopé da montanha, não é uma montanha qualquer: trata-se dos famosos Cuernos, uma das imagens de marca do Parque. São dois maciços separados que parecem ter crescido em paralelo para formar os cornos de um touro. Vou agora com o meu Kindle para o café do refugio, provavelmente pagar como 34 euros por um café rascoso, mas que sabe a quase isso quando sentado com sol na cara, a descansar as pernas, costas e calcanhares. 

21:00

O segundo dia é também um dia notoriamente mais social. Ajuda que a zona de cozinha seja interior, quente, com música e com espaço para todos. Meto conversa com o meu vizinho de bancada, o David, de Barcelona, que me gaba a coragem por trazer uma cebola e alho, antes de me oferecer azeite para fazer um refogado. Mais tarde junta-se a Laura, de Nova Iorque mas a dar aulas num colégio internacional em Buenos Aires, e em quem tinha reparado no dia anterior porque tínhamos sido vizinhos no parque Central. Ao lado jantava Sebastian, que trabalha no parque, transportando mochila e equipamento de duas americanas. Depois do jantar, na área para fumadores, meto conversa com um tipo que contemplava os Cuernos como se fosse a primeira vez. Pergunto-lhe se é a primeira vez. Diz-me que faz isto hà 13 anos. Junta-se a Alice, uma belga que se despediu para ver se encontra um ideia para um projeto pessoal. Pelo que me conta, parece-me já ter ideias e procurar sobretudo coragem. Com todas estas pessoas vou trocando ideias, partilhando queixas, recolho dicas. Todos eles dão me o empurrão que preciso para amanhã ir até ao Mirador Britânico, o tal que não contava ir. O calcanhar de Aquiles parece não ter nada especialmente contra. Vou-me deitar que amanhã sim há que acordar cedo.

Dia 3

8:30

Acordei às 7 e picos e estou a sair às 8:38. Ainda não foi perfeito, mas uma clara melhoria face ao dia anterior. 

9:30

Chove, ao contrário das previsões, mas já aprendi a não confiar nas previsões. Estamos na Patagonia, previsões só de que a Patagonia não quer saber muito das previsões. Chego ao acampamento Francês numa hora, e não em duas como todos me tinham dito. Fora uma ou outra subida, o terreno é essencialmente plano. BPMs devem ter andado pelas 120. Acho um bom indicador das energias e dos calcanhares. 

10:00

Chego ao Acampamento Italiano. Aqui devemos deixar as nossas mochilas grandes e levamos apenas as pequenas com alguma comida, água e um ou outro abrigo. Não tenho mochila pequena, mas apenas um saco azul da Decathlon, que até agora servia apenas para roupa suja mas que sobe na hierarquia e que uso como mochila. Claramente não pertenço ao grupo dos “caminhantes preparados”, mas sim “caminhantes desenrascados”. Não sei os números oficiais, mas estou certo que a taxa de mortalidade dos “caminhantes desenrascados” é significativamente mais alta que a dos “caminhantes desenrascados”.

Pergunto a uma rapariga que se tinha sentado ao meu lado se se preparava para subir ou descer. Chama-se Enrika, vem da Holanda, perto de Utrecht. Simpaticamente, espera por mim para começar a subida. Já lhe tinha mais ou menos tirado a pinta (sobretudo quando me diz que costuma ir todos os verões com os irmãos para a Austria fazer caminhadas) mas não estava preparado para o que se segue. Não é que Enrika, ao ver início da trilha, desata a correr? Então não sabe que isto é hiking e não running? Aviso que não tenho ritmo para acompanhá-la, não por mais do que uns segundos, e digo para seguir o seu ritmo. Responde-me que não, que até devia abrandar porque costuma-se cansar muito ráido. Simpática mas achincalhante. A verdade é que até agora só caminhei sozinho, pode ser interessante uma mudança e por isso aceito a companhia.

11:00

Algures na conversa chegamos a Deus. Não sei bem porquê. É protestante, o que eu sabia que é comum na Holanda e que queria dizer que acreditam mais na palavra da biblia do que nos seus interpretes. O que eu não sabia muito bem é que não vêm o trabalho de ler a biblia como um trabalho de interpretação. Fico meio sem jeito quando me diz que acredita que Deus criou a terra, “mais ou menos como ela está”, e que “muito provavelmente houve uma grande inundação, como a descrita na Biblia”. Exploramos o tema mais um bocado, explico-lhe um bocadinho a minha visão e pergunta-me se eu não acho arriscado não acreditar tendo em conta que as consequências. Pergunto-lhe se me fala do Inferno. Respondo que sim. 

12:00

Chegamos ao mirador Francês. À nossa frente impõe-se a encosta de uma montanha e o seu glaciar. Rios correm debaixo do gelo e por vezes soltam-se bocados de gelo. O espetáculo é tão bonito como assustador e imponente. Nesta fase já só falamos de filmes. Resta-nos uma hora até ao topo, até ao mirador Britânico.

13:00

O mirador Británico é apenas um calhau que se ergue das árvores. Ao subir ao mesmo, entramos num anfiteatro natural, com montanhas como bancadas e árvores como público. Nós somos patetas interpretes do espetáculo da vida, sem saber muito bem o que fazer a não ser contemplar o público e as bancadas e esperar que estes não nos descubram a farsa. 

Como o meu wrap de atum e quijo cheddar, daquele que vem em embalagens individuais, e que havia sempre em casa da minha Avó Migalha e que me lembram a essa outra infância.

14:00

A meio da descida encontramos duas raparigas sentadas, uma delas vestindo um saco de lixo. Reconheço-as dos dias anteriores, e de ter pedido um cigarro a uma delas no Dia 1, no acampamento Central. À medida que nos aproximamos percebemos que a que veste o saco do lixo está visivelmente em dor. Acho que vejo algumas lágrimas. Explicam-nos que as dores no joelho tornam a descida terrivelmente dolorosa e mostram-nos nódoas negras abaixo dos joelhos, que não terão sido causadas por nenhuma queda. Ofereco Voltaren, sem saber se ajudará minimamente, e a Enrika os seus sticks de caminhada.

15:00

Esperávamos desde as 14:30 no acampamento italiano pelas duas americanas. Sara, a lesionada chega e continua a caminhar de forma bastante pouco animadora. Faltam-lhes ainda umas três horas e meia pela frente, até chegar a Paine Grande. Ofereço-me para levar a sua mochila, que não está muito pesada. Vou buscar um bocado de água fria do rio e ofereço um bocado de Tiger Balm. Juro que ela nem era muito gira, eu é que precisava de ganhar alguns pontos com o Deus de Enrika, que se prepara para me enviar para o Inferno. 

17:00 

Finalmente conheço a verdadeira Patagonia. Começa com um vento forte. Depois deixo de conseguir andar em frente, mas apenas assim de lado, a bolinar. Depois vem a chuva. Molha? Ah pois molha. Mas aleija também: com o vento como cúmplice, parecem mil facas apontadas à minha cara, único pedaço de pele exposta à intemperie. 

Por alguma razão, tudo isto me parece bastante divertido. 

18:30

Chegado a Paine Grande e com tenda montada. O acampamento é famoso por ser ventoso, mas acho que encontrei um bom spot. Sento-me no café com uma barra Chocman, das melhores descobertas dos últimos dias, um café de apenas 2.5 euros e umas Pringles. É o menu “caminhei 25 kms com tenda, comida e roupa às costas, mais um pequeno bónus nos últimos 11 kms e estou nas últimas”.

21:00

Ao jantar encontro novamente Sebastián, o acartador profissional, que me conta algumas histórias do parque. Pergunto por mortes. Aparentemente há uns quantos cujo o coração rebenta a meio, mas há também uma ou outra história de pessoas que, por sairem da trilha, não voltam mais. Conta-me também da vez em que salvou o parque: trabalhava como recepcionista no parque Serón, e começa um fogo na cozinha. O extintor era bastante pequeno e não foi suficiente para parar o fogo. Sebastian, com treino de bombeiro, subiu ao telhado e deitou água diretamente sobre o fogo. Os bombeiro chegaram duas horas depois.

Falamos também de futebol, de Matías Fernandes, quase lenda chilena que quase foi lenda do Sporting, ou de Maurício Pinilla, ao lado de quem vi a final da então Taça Uefa em 2005 e que há uns anos imortalizou na pele o quase golo que ia marcando ao Brazil.

22:00

Expulsam-nos da zona de cozinha e cada um vai para a sua tenda. Restam-me dois dias, que deveriam ser acessíveis. Onze kms até ao Refúgio Grey, casa do Glaciar Grey, e no dia seguinte voltar até Paine Grande e apanhar o barco. Se cheguei até ao fim do dia de hoje, hei de chegar ao fim. Está muito vento.

22:14

Está mesmo muito vento

22:45

Que ventania. A minha tenda começa a dançar.

22:55

Bem sei que pode soar estranho, mas o teto da minha tenda vai-se colapsando em cima de mim. Do lado de fora oiço barulhos que só podem ser da tenda a rasgar-se. Durmo com os pés do saco de cama dentro de um saco do lixo, para evitar que se molhem com a água que arranja maneira de entrar.

23:13, 23:59, 01:01 e 02:01 

Saio da tenda para ver se estacas se aguentam e se já há rasgões. Até agora nada, mas está iminente. A estrutura de cima da tenda já nem tenta vencer o vento e vai descansando em cima das minhas pernas.

03:12

Ok desisto. O que se rasgar, rasgou, o que voar, voou. 

Dia 4

8:15

Acordo sem saber a quantas ando mas o teto continua em cima das minhas pernas. Mais vale aceitar derrota, acordar, e fazer-me à estrada. Saio da tenda para inspeccionar danos, mas, milagrosamente, as estacas aguentaram todas e não são visíveis rasgões. O que é certamente visível são as minhas olheiras. A dor de garganta que ameaçava no primeiro dia lá aparece de novo.

11:00

Faço-me à estrada. Arrumar tudo foi um pequeno pesadelo, porque o vento e a chuva obrigavam a fazê-lo dentro da tenda, que tem à volta de uns 2 metros cúbicos quando o teto não colapsa. Agora tem uns 10 por cento dessa área. Ou assim parece. O tendão de Aquiles esquerdo junta-se à festa. Não chateia muito mas começo a não gostar da coisa.

11:15

A noite mal dormida não foi o suficiente para deitar abaixo a moral, mas o vento que enfrento desde o primeiro quilômetro sim. A subida é inclinada, e mal tenho forças para por um pé à frente do outro. A música vai ajudando, mas os 11 quilômetros vão custar.

12:30

Já há alguns quilómetros que ia vendo pequenos grandes blocos de gelo espalhados pelo lago, mas agora ponho os olhos pela primeira vez no Glaciar Grey, de onde todos se soltaram. Vim tão preocupado com a parte do esforço físico que por vezes me esqueço do sítio onde estou e das coisas bonitas que me esperam. Lá ao fundo, um manto branco prolonga-se até ao horizonte, sem fim visível e sinto aquela alegria infantil de ver neve pela primeira vez. De ver um Glaciar pela primeira vez.

15:00

Passo uma última vez por Sebastián. Vem também  feito criança a tirar fotografias “para o Instagram”. Despedimos-nos com um abraço e dá-me forças para a última meia hora. Que são bem vindas: de há uma meia hora para cá, a perna esquerda vai dando sinais de estar no limite, ameaçando com câimbras. O excesso de peso no dia anterior, com a mochila da americana e a noite mal dormida parecem-me ser explicações tão razoáveis como a minha falta de preparação. Caminhar apenas com um pau de caminhada, do lado direito, também não deve ter ajudado.

16:30

A última meia hora foi em esforço, com perna e tendões de aquiles cada vez mais presentes. Aproveito que estou quente para montar de imediato a tenda, e folgo em ver que o Parque Grey é notoriamente mais protegido do vento. Mal termino de montar a tenda percebo que não tenho forças para ir ver o Glaciar de perto, ou para ir até ás pontes suspensas, um dos outros pontos de interesse. Terão de ficar para amanhã, e decido apenas preparar uma refeição quente. Dois casais de caminhantes experientes vão trocando histórias de guerra, e sinto-me bem à parte. A massa de tomate e atum, por seu lado, anima-me os espíritos, como sempre me animou em Lisboa, em casa ou no mar. 

22:00

Aproveitei o resto das horas que tinha para descansar. Tomei um duche quente, li um bocado, dormi uma sesta, fui até ao “web ciber café”, onde, a troco de uma review no tripadvisor, me deram quinze minutos de internet. Descubro da morte de Kobe Bryan, mas procuro sobretudo saber de Bruno Fernandes. O fim da relação ainda não é oficial mas parece estar por horas. 

Jantei entre os dois casais de caminhantes irritantes e Laura, a professora americana em Buenos Aires. Joga às carta com um grupo ao qual me junto depois de comer os meus tacos de carne guisada, supreendentemente bons, e assim continuamos até nos expulsarem. Para celebrar ter sobrevivido até à última noite, bebi uma cerveja, francamente desapontante, que entra para top 3 de cervejas mais caras da minha vida. 

Preparo-me, pela última vez para ir para a minha tenda dormir. Talvez pela primeira vez, sinto que gostava de continuar por mais uns dias.

Dia 5

10:00

Acordei cedo mas não tão cedo quanto precisava para ir até às pontes suspensas. Agarrei numa maça e fiz-me à estrada, para pelo menos para ir até ao mirador do Glaciar Grey. Chego, e o mesmo maciço branco recebe-me. Hoje, a uns 50 ou 60 metros. Não há muita gente e é possível ouvir um barulho que parecem vidrinhos a chocar. Decido ir explorar a zona e passo por alguns sinais de perigo, mas é o meu último dia, ideal para cair e torcer o tornozelo. Felizmente sobrevivo até chegar perto da água e percebo de onde vem o barulhos dos vidrinhos: quase toda a superfície do lago são pedaços de gelo minúsculos que chocam uns nos outros e produzem o tal som de vidrinhos. Brinco uma boa meia hora com os pedaços maiores que vou encontrando, e lembro-me de quando era criança e explorava poças na praia da Maria Luísa ou do ano passado, em que explorava poças ao largo da Ilha de Ponza.

11:00 

Volto para o acampamento, meio relutante. Compro 3 ovos, a um preço bem aceitável e de importância impagável para os espíritos, que não se podem deixar afetar pelo cansaço físico. A perna deu sinais de si no passeio até ao Glaciar, mas acho que aguenta até ao fim.

11:11

Uns americanos olham para mim de forma estranha…

11:15

Não são americanos. Dois amigos, da Escócia e Irlanda, que me invejavam a manteiga. Sinto que isto sim é um sinal e ofereço a manteiga. Explico que não vou precisar mais, e incluo na oferenda uma meia cebola e alho e pimenta. Agradecem-me, radiantes, e vão comprar ovos. Dizem que é a melhor manteiga da sua vida. Despeço me da manteiga, que veio para fazer felizes estes dois amigos aventureiros. Chegámos ao futebol muito rapidamente. Um é do Liverpool, e diz-me que este ano “does not slip”. Outro é do United. Peço que trate bem do Bruno Fernandes. 

14:00

Caminho pela primeira vez sem grandes pressões de tempo. Vou parando em todos os miradouros, gravando imagens mentais da beleza que me rodeia. Os picos rochosos cobertos de neve, de um lado, o lago de cor esmeralda do outro, do qual vão emergindo os tais pequenos grandes pedaços de gelo. De vez em quando olho para trás, e a imensidão do Glaciar Grey continua a impressionar-me, quase tanto como da primeira vez. Só me restam dois wraps de atum e queijo, mas sabem a bife de chorizo, que sabe a céu. A perna aperta, mas eu aperto com ela e explico que estamos quase. Vai-se resignando. O sol vai-se apresentando a intervalos, e a chuva deve andar por outras paragens.

16:00

Chego a Paine Grande e invade-me uma enorme sensação de alegria. Não só de dever cumprido, não só pelo fim da dor e do cansaço, mas de genuíno contentamento por ter andado e sobrevivido nesta montanha chilena, mas com ares de russa.


Peço uma vez mais o menu Pringles, café com leite e barra Chocman enquanto espero pelo barco. 

Comments

Popular posts from this blog

Península Valdés