Jojo Rabbit e a cidade em que não se pode dançar
(As palavras que se seguem contêm um spoiler grande sobre o filme Jojo Rabbit. O filme ainda está em cena em alguns cinemas portugueses, pelo que aconselho aqueles que ainda não o viram a interromperem a leitura por aqui e e só voltarem depois de ver o filme. Não sendo nenhuma obra prima, vale a pena. Fica também a nota que, na altura em que escrevo estas palavras esse spoiler vem mais para o fim, numa frase que começa por “Ora, ali no meio (…)”.)
Lagoas, geysers, quebradas, estrelas, montes e montanhas. Cheguei a San Pedro de Atacama com uma lista de coisas para ver e fazer recolhida da internet e do passa a palavra. Comecemos com um conselho: todas estas atividades podem ser feitas através das mil uma agências espalhadas pela vila de San Pedro, mas, o melhor mesmo é, se o orçamento o permitir, alugar um carro por carro. As passeios vendidos pelas agênvias, todos iguais entre si, cumprem apenas o propósito de deslocar, em simultâneo, centenas de turistas para os locais de interesse, oferecendo uma explicação pobre sobre a riqueza geológica do Atacama. Com o carro e a liberdade que só este permite, é possível evitar as enchentes e encontrar algum recolhimento, que a paisagem pede. O autor recomenda também que se escute qualquer dos vários trabalhos do conjunto musical War on Drugs, especialmente adequados a viagens de carro contemplativas e a paisagens áridas.
Assim, e seguindo a minha lista, no primeiro dia visitei a Laguna Tuyajto e o Salar de Talar, já quase na fronteira com a Argentina, bem como a Laguna Miscanti e Miniques, no Parque Nacional Flamingos. Vi uns 6 flamingos, bem ao longe. Desapontante. No regresso tive direito a um por de sol de antologia, assim da cor de milhões de flamingos. Cheio de fome, havia que encontrar um restaurante em San Pedro. Há muitos, porque há muitos turistas e quase todos oferecem um menu fixo entre os 3.000 e os 10.000 pesos chilenos (qualquer coisa como 3 euros e meio e 11 euros). A comida é indiferente e cara para o que é, mas ninguém vem a San Pedro pela sua gastronomia. Depois do jantar, um pequeno passeio pela vila, que, ainda que assumidamente turística, tem o seu charme. Os edifícios são todos construídos da forma tradicional, de adobe, e apenas com um andar, para manter uniformidade.
No dia seguinte fui até à Laguna Cejar, uma espécie de mar morto em miniatura, onde se pode flutuar sem qualquer dificuldade devido à alta concentração de sal. O resto do dia foi dedicado a procurar uma excursão ao Salar de Uyuni, mas isso é conversa para depois.
Quarto dia foi dos grandes. De manhã cedo, depois de comer uns três abacates, que é das poucas coisas de facto extraordinárias do Chile, gastronómicamente falando, está claro, a estrada levava aos Petróglifos de Yerba Buena. Inscrições de lamas, representações de caçadas, tudo pré-columbino, que é como se marca o tempo por estes lados. A mesma estrada leva à ao Vale Arco Íris. Estava com algum medo deste, e da saturação das fotografias do Google. Neste caso a realidade é tão saturada como as fotografias, se não melhor. Tão bom quando assim é. Ainda deu tempo para visitar o Vale de la Luna, encontrar alguns amigos de outras paragens e assistir a um belo por do sol.
Para o fim dia ficaram os Geyser de Tatio. Lamentavelmente, Pachamama terá decidido que os Geyser só funcionam entre as 6 e as 8 da manhã, antes do nascer do sol. Uma vez que os Geyser estão a uma hora e meio de San Pedro, há que acordar ali entre as 4 e as 5 da manhã, no meio da total escuridão, e guiar por estradas de gravilha em más condições, sem qualquer noção do que nos rodeia. Mas são tantos os carros e carrinhas que fazem parte desta procissão que é impossível sentirmo-nos sozinhos. Os Geyser são impressionantes, mas ainda mais é mesmo o caminho de regresso. Toda a escuridão se converte em paisagem, em vales sem fim, a curva e contracurva leva-nos tanto do alto para o baixo de vales, rios correm ao nosso lado para terminar em autênticos oásis onde lamas, flamingos, patos e outros animais que não saberia identificar se alimentam. Uma vez que não corre uma brisa, os lagos que se formam no fim dos riachos são autênticos espelhos que duplicam a paisagem e a beleza que nos rodeia.
E tudo isto seria suficiente para justificar uma passagem por San Pedro.
Mas as paisagens bonitas são apenas uma história das muitas que San Pedro tem para contar ao mundo. Histórias essas que só descobri porque no meu último dia, que estava alocado ao descanso, decidi alugar uma bicicleta e explorar as imediações. Estava apontado à Garganta del Diablo, de que me tinham falado bem, quando, a meio caminho, encontrei um par de bicicletas estacionadas. Movido pela curiosidade e pela total liberdade que apenas nos é permitida quando viajamos sozinhos, decidi entrar.
E foi ai que me foi contada a história dos atacameños, povo ganadeiro, agrícola e guerreiro, que aprendeu a viver no deserto árido desde há muito tempo, construindo oásis, no plurar, locais onde ainda hoje se concentram as povoações locais, manchas verdes no meio da terra castanha. O local onde me tinha perdido era o Pukará de Quito, fortaleza onde os atacameños se defenderam dos espanhóis, que chegaram ao Atacama no ano de 1542. Os atacameños, que até ai conviviam pacificamente com os Incas, resistiram 20 anos. No topo do monte uma placa conta a história de 25 atacameños que, em 1540, “defendiam a sua liberdade, família e alimentos contra uma centena de aventureiros ávidos de ouro”. Os atacameños não resistiram, e esta derrota “marca o decadente destino da desenvolvida cultura Atacamena…até aos dias de hoje.” Neste lugar encontra-se um monumento, 4 cruzes de cristo cujas bases formam um quadrado. No topo é possível ler, em espanhol, português, kunza, e alemão “Meu deus, porque me abandonaste”. São as palavras proferidas por Jesus Cristo na Cruz, aquelas teriam passado pela cabeça dos 25 atacameños se as conhecessem e que terão sido posteriormente repetidas por toda a América do Sul convertida. O monumento tenta ser reconciliador, mas sem permitir o esquecimento.
Em 1557 assinara-se um acordo de paz, que representou a rendição dos atacameños e posterior aculturação. Adotaram nomes católicos e alteraram as estruturas administrativas até ai vigentes, pensadas para a realidade de um deserto e não da Península Ibérica.
De repente o Atacama, que parecia apenas uma Disneyland da Natureza, torna-se um lugar real, com passado, com contexto. A curiosidade tinha sido espicaçada e fui procurar mais sobre onde estava. Descobri que o salitre, aquele mineral que cobre a paisagem como se de neve se tratasse (e que no primeiro dia me obrigou a sair do carro para o experimentar, como se tivesse 5 anos), é menos inocente do que parece. É que os espanhóis não encontraram (aqui) o El Dorado que lhes tinha sido prometido, mas apenas salitre. Rapidamente terão percebido que o que encontraram não dava para transformar em coroas, mas que era indispensável à manutenção das Coroas: é que o salitre, também conhecido como potássio de nitrato, é um dos elementos necessários para fazer pólvora. Foi este o motor da economia da região durante muitos anos e foi pelo controlo da zona que o Chile entrou em guerra com Bolívia e Peru, onde terão morrido pelo menos 11.000 pessoas. A história acabou como a da banana, da cana do açúcar e de tantas outras matérias primas deste lado mundo: os alemães inventaram o salitre sintético, muito mais barato que o atacameño, que assim deixou de ter qualquer valor. Hoje são muitas as minas e povos fantasma que se pode visitar na zona, que dependiam exclusivamente do salitre para sobreviver.
Pela cidade vendem-nos visitas para todo o tipo der lagoas, geysers, salares, vales que fazem lembrar outros planetas, sítios quase irreais, saídos de um filme de cowboys ou de astronautas. Alguns podem ser levados a criticar San Pedro por ser um sítio demasiado turístico. Que é. Mas isso, a meu ver, é uma coisa boa: é bonito que um sítio que costumava depender da pólvora dependa agora de exibir ao mundo a sua beleza natural. Será que aqueles que se queixam da natureza turística de San Pedro não teriam mais facilidade em apreciar isso mesmo se lhes fossem contadas essas histórias? Tenho quase a certeza que sim.
A questão que fica por responder é que tem Jojo Rabbit, película de Hollywood onde nos contam a história de Jojo Rabbit, membro da juventude hitleriana com San Pedro de Atacama.
É que há pelo menos mais uma história muito boa sobre San Pedro: não se pode beber álcool ou dançar.
Primeiro explicaram-me que seria uma questão religiosa, ligada à cultura local: a a dança só seria permitida no Carnaval. Na verdade o que se passa é que nos anos 60 Atacama era uma espécie de Sodoma e Gomorra, que atraía apenas hippies em busca de arruaça, e não o tipo de turistas no qual a vila estava interessada. De arrastão foi proibida a dança, que, ao que parece incentiva o consumo de álcool. Esta proibição compreensivelmente não abrange o carnaval local, daí a história que me contaram.
Ora, ali no meio do Jojo Rabbit, a personagem de Scarlet Johansen, Rosie, explica ao filho de 10 anos, militante dedicado da juventude hitleriana, que o Reich está a perder e que não tarda vão poder dançar. Dançar é a forma de agradecer a Deus por estarmos vivos, explica-nos Rosie. Jojo não acredita, mas nós que já sabemos como acaba a história, acreditamos.
Mais tarde Jojo pergunta a Elsa, a adolescente judia que se esconde em sua casa, qual a primeira coisa que fará quando estiver livre. Dançar, responde-lhe Elsa. E é isso mesmo que acontece no fim do filme, com a libertação da vila onde vivam Elsa e Jojo pelo aliados: dança-se, e dança-se bem, ao som de David Bowie (será Heroes a melhor música para terminar um filme ou a mais previsível? Sim.)
Talvez nos anos 60 uma medida de pendor autoritária e tão repressiva da liberdade individual e mesmo foleira como proibir a dança se justificasse. Hoje não. Os parques são geridos diretamente pelos locais e os montantes cobrados para entrada revertem na totalidade para as comunidades locais. Os funcionários corrigem-nos com cara de poucos amigos cada vez que perguntamos por um lugar utilizando o seu nome turístico - por exemplo, foi me explicado talvez não da forma mais simpática possível que o nome da Garganta del Diablo é na verdade Quebrada de Chulacao. Tenho quase a certeza que os turistas que querem apenas dedicar-se à vida boémia escolhem outras paragens e que quem visita hoje San Pedro pela sua beleza está prontos para ouvir as outras histórias. Talvez um dia se possa voltar a dançar na vila de San Pedro de Atacama. Sugiro que comecem por David Bowie, mas aceito qualquer cumbia que esteja a passar na rádio ou mesmo Karol G.
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